O fascismo está vivo e cada vez mais forte

Recebo, do amigo e velho combatente Sérgio Caldieri, um artigo de leitura indispensável, escrito por Eric Draitser, do site StopImperialism.

Sei que muitas vezes – e com mais leitura – temos de ficar nos temas próximos e diários, mas é bom levantarmos os olhos para ver o horizonte e entender o que se passa no mundo , o que sempre nos ajuda a compreendermos melhor o que se passa aqui.

A crise de 2008, tão noticiada na mídia nos seus aspectos econômico-financeiros, é sempre negligenciada na imprensa em seus efeitos político-sociais.

Quando muito, tudo é descrito como “protestos”.

Da mesma forma, não se analisa o posicionamento do grande ator político global,  os Estados Unidos, nestes movimentos.

Fiquemos longe de uma transposição mecânica e incorreta para o Brasil, mas também não esqueçamos que estes acontecimentos se dão na periferia econômica da Europa, e em países que haviam atravessado poucas décadas de liberdades e democracia: a Grécia, ditadura militar até 1974, a Ucrânia, soviética até três décadas, Egito, o que sabemos desde Anuar Sadat e Hosni Mubarak…

Separe um tempo para ler, se não puder fazê-lo agora.

É algo que nossa imprensa, tão pródiga em imagens destes confrontos, raramente nos dá como informação e análise.

O renascimento do fascismo na Europa

A violência nas ruas da Ucrânia é muito mais do que uma expressão de raiva popular contra o governo. Em vez disso, ela é apenas o mai O renascimento do fascismo na Europa s recente exemplo da ascensão da forma mais insidiosa do fascismo vista na Europa desde a queda do Terceiro Reich.

“Manifestantes” ucranianos armados para “protestos”

Nos últimos meses houve protestos regulares pela oposição política ucraniana e seus apoiadores – protestos aparentemente em resposta à recusa do presidente ucraniano, Yanukovich, em assinar um acordo comercial com a União Europeia, o que foi visto por muitos observadores políticos como o primeiro passo para a integração europeia. Os protestos permaneceram em grande parte pacíficos até o dia 17 de janeiro, quando manifestantes, armados com porretes, capacetes e bombas improvisadas, desencadearam a violência brutal contra a polícia, atacando prédios do governo, batendo em qualquer pessoa suspeita de simpatias pró-governo e, geralmente, causando estragos nas ruas de Kiev. Mas quem são esses extremistas violentos e qual é a sua ideologia?

 A formação política é conhecida como “Pravy Sektor” (Setor Direita), que é essencialmente uma organização guarda-chuva para vários grupos ultranacionalistas (leia-se fascistas) de direita, incluindo os apoiadores do Partido “Svoboda” (Liberdade), “Patriotas da Ucrânia”, “Assembleia Nacional da Ucrânia – Autodefesa Nacional Ucraniana” (UNA-UNSO), e “Trizub”. Todas essas organizações compartilham uma ideologia comum que é veementemente antirussa, anti-imigrantes e antijudaica, entre outras coisas. Além disso, eles compartilham uma reverência comum pela chamada “Organização dos Nacionalistas Ucranianos”, liderada por Stepan Bandera, os infames colaboradores nazistas que lutaram ativamente contra a União Soviética e se envolveram em algumas das piores atrocidades cometidas por qualquer lado na Segunda Guerra Mundial.

 Enquanto as forças políticas ucranianas, oposição e governo, continuam negociando, uma batalha muito diferente está sendo travada nas ruas. Usando intimidação e força bruta mais típica de “camisas marrons” de Hitler ou “camisas negras” de Mussolini do que de um movimento político contemporâneo, esses grupos conseguiram transformar um conflito sobre a política econômica e as alianças políticas do país em uma luta existencial pela própria sobrevivência da nação que estes assim chamados “nacionalistas” dizem amar tanto. As imagens de Kiev em chamas, ruas de Lviv cheias de bandidos, e outros exemplos assustadores do caos no país, ilustram, sem sombra de dúvida, que a negociação política com a oposição Maidan (praça central de Kiev e centro dos protestos) agora não é mais a questão central. E, ao invés disso, é a questão do fascismo ucraniano e, se é, ele será apoiado ou rejeitado.

Por sua vez, os Estados Unidos se colocaram fortemente do lado da oposição, independentemente de seu caráter político. No início de dezembro, os membros do stablishment dominante dos EUA, como John McCain e Victoria Nuland, foram vistos em Maidan dando seu apoio aos manifestantes. No entanto, como o caráter da oposição tornou-se evidente nos últimos dias, os EUA e a classe dominante ocidental e sua máquina de mídia têm feito pouco para condenar o surto fascista. Em vez disso, seus representantes se reuniram com representantes do Setor Direita e não os consideraram uma “ameaça”. Em outras palavras, os EUA e seus aliados deram a sua aprovação tácita para a continuação e proliferação da violência em nome de seu objetivo final: mudança de regime.

Em uma tentativa de tirar a Ucrânia da esfera de influência russa, a aliança EUA-UE-OTAN, e não pela primeira vez, aliou-se aos fascistas. É claro que, durante décadas, milhões na América Latina desapareceram ou foram assassinados por forças paramilitares fascistas armadas e apoiadas pelos Estados Unidos. Os mujahideen do Afeganistão, que mais tarde se transformaram em Al Qaeda, também reacionários ideológicos radicais, foram criados e financiados pelos Estados Unidos para desestabilizar a Rússia. E, claro, há a realidade dolorosa da Líbia e, mais recentemente, da Síria, onde os Estados Unidos e seus aliados financiam e apoiam jihadistas extremistas contra um governo que se recusou a se alinhar com os EUA e Israel. Há um padrão perturbador aqui que nunca foi perdido pelos observadores políticos mais atentos: os Estados Unidos sempre fazem causa comum com os extremistas de direita e fascistas para ganho geopolítico.

 A situação na Ucrânia é profundamente preocupante, pois representa uma conflagração política que poderia muito facilmente despedaçar o país menos de 25 anos após a sua independência da União Soviética. No entanto, há outro aspecto igualmente preocupante para a ascensão do fascismo no país – não é só na Ucrânia.

 A Ameaça Fascista pelo Continente

 A Ucrânia e a ascensão do extremismo de direita não podem ser vistas, e muito menos entendidas, de forma isolada. Em vez disso, isso deve ser examinado como parte de uma tendência crescente em toda a Europa (e mesmo no mundo) – uma tendência que ameaça os próprios fundamentos da democracia.

 

Deputados do “Aurora Dourada” no parlamento grego

Na Grécia, a austeridade selvagem imposta pela troika (FMI, BCE e Comissão Europeia) paralisou a economia do país, levando a uma depressão tão ruim, se não pior, do que a Grande Depressão nos Estados Unidos. É contra esse pano de fundo de um colapso econômico que o partido Aurora Dourada (orig. Golden Dawn) cresceu e se tornou o terceiro partido político mais popular do país. Defendendo uma ideologia do ódio, a Aurora Dourada – de fato, um partido nazista que promove chauvinismo antijudaico, anti-imigrantes, antimulheres – é uma força política que o governo em Atenas entendeu como uma séria ameaça para o próprio tecido da sociedade. É essa ameaça que levou o governo a deter a liderança do partido depois de um nazista da Aurora Dourada ter fatalmente esfaqueado um rapper antifascista. Atenas lançou uma investigação sobre o partido, ainda que os resultados desta investigação e julgamento permaneçam pouco claros.

O que torna a Aurora Dourada uma ameaça tão insidiosa é o fato de que, apesar de sua ideologia central do nazismo, a sua retórica anti-UE, anti-austeridade atrai a muitos na Grécia economicamente devastada. Tal como aconteceu com muitos movimentos fascistas do século 20, a Aurora Dourada culpa os imigrantes, muçulmanos e africanos, principalmente, por muitos dos problemas enfrentados pelos gregos. Em circunstâncias econômicas terríveis, tal ódio irracional torna-se atraente, uma resposta para a pergunta de como resolver os problemas da sociedade. De fato, apesar dos líderes da Aurora Dourada estarem presos, outros membros do partido ainda estão no parlamento, ainda concorrendo por grandes cargos, incluindo para prefeito de Atenas. Embora uma vitória eleitoral seja improvável, outra forte presença nas urnas vai tornar a erradicação do fascismo na Grécia muito mais difícil.

holanda

Pesquisa eleitoral na Holanda: extrema-direita (PVV) não para de crescer e é franca favorita nas eleições

 Deve-se notar, também, que, para além da Europa, há uma série de formações políticas quase fascistas que são, de uma forma ou de outra, apoiadas pelos Estados Unidos. Os golpes de direita que derrubaram os governos do Paraguai e Honduras foram tacitamente e/ou abertamente apoiados por Washington em sua busca aparentemente interminável para suprimir a esquerda na América Latina. Claro, deve-se também lembrar que o movimento de protesto na Rússia foi encabeçado por Alexei Navalny e seus seguidores nacionalistas, que defendem uma ideologia racista virulentamente antimuçulmanos que vê os imigrantes do Cáucaso russo e ex-repúblicas soviéticas como abaixo dos “russos europeus”.

Estes e outros exemplos começam a pintar um retrato muito feio da política externa dos EUA, que tenta usar as dificuldades econômicas e agitação política para expandir a hegemonia dos EUA pelo mundo.

 Na Ucrânia, o “Setor Direita” levou a luta da mesa de negociações para as ruas, na tentativa de realizar o sonho de Stepan Bandera – uma Ucrânia livre da Rússia, de judeus, e de todos os outros “indesejáveis”, como eles os veem. Estimulados pelo apoio contínuo dos EUA e da Europa, esses fanáticos representam uma ameaça mais séria à democracia do que Yanukovich e o governo pró-russo jamais poderiam ser. Se a Europa e os Estados Unidos não reconhecem essa ameaça em sua infância, no momento em que, finalmente, o fizerem poderá ser tarde demais.

PS. A tradução é de João Aroldo e foi publicada no blog RedeCastorPhoto.

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Comentários no Facebook

14 Respostas

  1. psdb NUNCA MAIS! disse:

    Eles não teem ideologia, apenas promovem a violência contra cidadãos comuns e seus instrumentos são os tais black blocs, bandidos agindo sob soldo do neonazismo.

  2. Mauricio disse:

    Em um mundo com tudo pra ser um paraiso, esses neolibertinos com suas ideias, nos colocam diante de um novo banho de sangue. Vao pra puta que os pariu.

  3. Ricardo disse:

    Não será esse movimento anti-copa resultado direto dessas intervenções e tentativas de desestabilização promovidas pelos eua ?

  4. James disse:

    “há uma série de formações políticas quase fascistas que são, de uma forma ou de outra, apoiadas pelos Estados Unidos.”

    Os EUA apoiaram abertamente o governo de hitler, com quem mantiveram diversos contratos comerciais e de apoio científico. Em Auschwitz, foi instalada , pelo grupo IGfarben, a buna, com o apoio da Standard Oil de New Jersey, a Esso.

    Assim como apoiou o regime nazista, tio sam apoiou a URSS. Just business.

    De onde vem o dinheiro para as despesas do bléqui-blóqui brasileiro?

    A embaixadora ayalde, dos EUA, é especialista em golpe de estado.

    • Antonio Mota disse:

      Amigo JAMES, o Hitler só foi realmente perseguido quando ele resolveu invadir a França, que foi quem proporcionou a libertação dos norte americanos das garras da Inglaterra, e ironicamente foi a URSS quem libertou os Franceses, muito embora os filmes americanos insistam em mostrar suas tropas libertando os franceses(se fosse num filme Brasileiro, provavelmente a Lya Luft acharia uma indecência), se o Hitler tivesse continuado a invadir os Países não alinhados com os norte americanos, provavelmente ele estaria entre nós até hoje.
      Observe que na capa do vinil dos Beatles, o Abbey Road, não sei se foi espontâneo, mas está lá uma das maiores homenagens ao Hitler, o FUSCA, sua grande obra, como o quinto elemento, na cor das faixas, que simboliza atenção, segurança, atravesse com liberdade.

  5. Marcone F.L. disse:

    Isso se chama fascismo que usa a violência para chegar ao poder, coisa que Hitler e Mussolini sabiam como fazer.O que vemos aqui e uma cobertura superficial sobre a verdadeira intenção dos protestos na Ucrânia.

  6. Messias Franca de Macedo disse:

    [FASCISMO E SOBRE ASSINATURA ‘BOLA MURCHA’!]

    … E nos “menos assinados” do PIGolpista: ‘anuncie por um ano e ganhe uma… Bola Brazuka Copa do Mundo da FIFA 2014?! Pausa para rir!

    NOTA [FÚNEBRE!] da editora Abril!: o brinde será enviado em até 35 dias após o pagamento da 2ª parcela.

    Lá isso é jornalismo?!… Lá isso é oPÓsição, sô?!…

    República da [eterna] ‘Anã’ oPÓsição ao Brasil! “O cheiro do PÓ ‘cheiroso’ e dos cavalos ao do povo!”
    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

  7. EDD disse:

    Caro Fernando, parabéns pela divulgação do artigo, é de fato muito bom e aborda tema muito importante. Existe uma guerra contra a democracia no mundo todo, comandada pelo complexo militar corporatocrata, capitaneado pela Companhia da Índias Angloamericanas. É preciso chamar a atenção do povo brasileiro para isso. Só assim eles poderão entender por que, de repente, surgem por aqui as pragas dos anonymous e black blocs. Tudo é parte dessa guerra contra a democracia. Eles estiveram na Tunísia, na Líbia, no Egito, etc., deixando invariavelmente em seu rastro ditaduras e estados falidos. Amanhã haverá eleições na Tailândia. A oposição tem promovido manifestações com centenas de milhares de participantes em Bangkok, dentre os quais muitos que se dizem de esquerda. Porém a bandeira principal dessas manifestações é “Não vai haver eleições!”. Depois de serem derrotados seguidas vezes agora os grupos de oposição lá já culpam diretamente a democracia pelo seu infortúnio. É isso também, em essência, o que ocorre agora na Ucrânia. Esses grupos fascistas que estão nas ruas de Kiev não querem saber de eleições, querem acabar com a democracia. Amanhã também há eleições em El Salvador e nem a mídia corporativa nem os blogs alternativos deram uma só linha sobre esse importantíssimo evento já que, de acordo com todas as pesquisas, deverá sair vencedora a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional. Também lá a oposição deseja melar as eleições, passou a combater a democracia. O mesmo temos visto na Nicarágua onde os Sandinistas com Daniel Ortega à frente estão no poder desde 2007. Esses exemplos latinoamericanos, além dos usuais aqui na América do Sul (Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina) mostram que a democracia na América Latina tem sido capaz de oferecer alternativas com benefícios concretos para a população. Na verdade, acredito estar aqui na AL o último reduto onde a democracia pode se constituir de fato numa plataforma de salvação da civilização. Por isso é tão importante nos abrirmos para o cenário político mundial e impedir a todo custo que a discussão política local se reduza a um Fla-Flu apatetado do tipo camisas vermelhas contra camisas azuis, ou algo assim.

  8. Luís Carlos disse:

    EUA sempre tramando contra o mundo por dinheiro. Black Blocs e Anonymous tem esse mesmo papel aqui no Brasil. Terror é terror, seja de Estado, do capital, de tática ou da mídia, sempre adversário da democracia.

  9. Carlos Fleck disse:

    É tema muito sério.
    Mas tem remédio.
    A receita é:
    1)Muito emprego e renda crescente
    2)Muita educaçao(que saudade do tio Briza)
    3)Muita saude(viva o Mais Médicos)
    4)Neutralizar por todos os meios o golpismo do PIG(que mente,torce e inventa)
    Ah!Ia me esquecendo!!Causar uma infecçao mortal e dor insuportável ao bolso desses canalhas famigerados que compoem as famílias que controlam a mídia(viva o Franklin Martins)

  10. ana disse:

    para ler e repassar

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